terça-feira, 22 de maio de 2012

O Que Temos Visto Por Ai???

Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes. Com suas danças e poses em closes ginecológicos, cada vez mais siliconadas, corpos esculpidos por cirurgias plasticas, como se fossem ao supermercado e pedissem o corte como se quer... mas???


Chegam sozinhas e saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros, analistas, e outros mais que estudaram, estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos. Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos "personal dancer", incrível.


E não é só sexo não! Se fosse, era resolvido fácil, alguém dúvida? Sexo se encontra nos classificados, nas esquinas, em qualquer lugar, mas apenas sexo!


Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho, sem necessariamente, ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico na cama... Sexo de academia.


Fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão "apenas" dormir abraçadinhos, sem se preocuparem com as posições cabalisticas.


Sabe essas coisas simples, que perdemos nessa marcha de uma evolução cega. Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção. Tornamo-nos máquinas, e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.


Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada nos sites de relacionamentos "ORKUT", "PAR-PERFEITO" e tantos outros, veja o número de comunidades como: "Quero um amor pra vida toda!", "Eu sou pra casar!" até a desesperançada "Nasci pra viver sozinho!".


Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários, em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis, se olharmos as fotos de antigamente, pode ter certeza de que não são as mesmas pessoas, mulheres lindas se plastificando, se mutilando em nome da tal "beleza".


Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento, e percebemos a cada dia mulheres e homens com cara de bonecas, sem rugas, sorriso preso e cada vez mais sozinhos.


Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário... Pra chegar a escrever essas bobagens? (Mais que verdadeiras) é preciso ter a coragem de encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa.


Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia isso é julgado como feio, démodê, brega, familias preconceituosas.


Alô gente!!! Felicidade, amor, todas essas emoções fazem-nos parecer ridículos, abobalhados...
Mas e daí? Seja ridículo, mas seja feliz e não seja frustrado. "Pague mico", saia gritando e falando o que sente, demonstre amor...


Você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta mais...


Perceba aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, ou talvez a pessoa que nada tem haver com o que imaginou mas que pode ser a mulher da sua vida. E, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois... Quem disse que ser adulto é ser ranzinza ?


Um ditado tibetano diz: "Se um problema é grande demais, não pense nele... E, se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele?"


Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo, assistir desenho animado, rir de bobagens e ou ser um profissional de sucesso, que adora rir de si mesmo por ser estabanado.


O que realmente, não dá é para continuarmos achando que viver é out ou in.


Que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo, que temos que querer a nossa mulher 24 horas maquiada, e que ela tenha que ter o corpo das frutas tão em moda, na TV, e também na Playboy e nos banheiros. Eu duvido que nós homens queiramos uma mulher assim para viver ao nosso lado, para ser a mãe dos nossos filhos, gostamos sim de olhar e imaginar a gostosa, mas é só isso, as mulheres inteligentes entendem e compreendem isso.


Queira do seu lado a mulher inteligente: "Vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois, ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida".


Porque ter medo de dizer isso, porque ter medo de dizer: "Amo você", "fica comigo"... Então não se importe com a opinião dos outros, seja feliz!


Antes ser idiota para as pessoas que infeliz para si mesmo!

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A humanidade sempre foi uma ilusão à toa

ESTOU DE SACO cheio; vou telefonar para o Nelson Rodrigues para ver se ele me dá alguma luz, lá do céu. Disco o telefone preto. Não quero mais falar sobre esta guerra santa, mas caio sempre neste tatear confuso, tentando raciocinar com as luzes do bom senso, de causa e efeito, da psicologia. Mas o terror não se explica. Ali, entre o Tigre e o Eufrates, é que nasceu o mundo e pode ser que acabe ali também. O telefone toca. Já ouço as risadinhas dos serafins que ficam contando piadinhas de sacanagem. — Nelson... sou eu, o Arnaldo... — Você me ligando, rapaz... como um telefonista de si mesmo... Achei que tinha me esquecido... — Eu jamais te esqueço... mas estou apavorado com a História humana... — Pára com isso, rapaz, a História não existe... Não é que a História acabou, como disse aquele japonês do Pentágono; não, a História nunca existiu... Ela foi uma invenção daquele alemão, o tal de Hegel, que, aliás, está ali sentado numa nuvem, chorando lágrimas de esguicho numa cava depressão... O sujeito achava que a "história" se movia em direção a uma "espiritualidade absoluta" e, de repente, descobre que meia dúzia de malucos, cheirando a banha de camelo, com camisolas imundas e com a face alvar da estupidez completa, está transformando a vida humana numa sinistra piada de português... ah! ah!... A História humana é um pesadelo humorístico. Você achava que a vida era movida pelas "relações de produção" e coisa e tal... Pois, está aí... a única coisa que existe é a loucura humana... Aqueles macacos que, na Idade do Gelo, se esconderam numas cavernas sujas pra não morrer de frio tiveram de inventar a tal da "linguagem", para preencher o vazio entre eles e a natureza... O homem não é superior aos outros animais, não. Ele é inferior, ele veio com defeito de fábrica... O Nietzsche, aquele cara esquisitão que também anda por aqui, bigodudo, muito sério, falando sozinho, escreveu que "num planeta distante, animais inteligentes inventaram o Conhecimento. Foi o instante mais arrogante e mentiroso do universo. Mas, depois de alguns suspiros da Natureza, o planeta acabou e os tais animais inteligentes morreram..." O Nietzsche é um craque... Sempre que eu posso, tomo um cafezinho com ele. — Mas Nelson, o herói suicida é invencível... — Engraçado... todo mundo está impressionado com os suicidas... A coisa mais fácil do mundo é o sujeito se matar, rapaz. Na minha infância profunda, toda semana, casais de namorados se jogavam do Pão de Açúcar, os amantes faziam pactos de morte e tomavam guaraná com formicida, as mocinhas ateavam fogo às vestes e se jogavam dos prédios como busca-pés de São João... Era lindo... as mulheres suspirando por um suicídio de amor... — Mas esses caras acham que o suicídio leva ao céu... Aliás, você viu algum deles por aí? — Olha... a gente só vai para o céu em que acredita... Os árabes não vêm para cá... Se bem que o paraíso deles até que não é longe... Outro dia, eu resolvi dar uma espiadinha lá... Rapaz, parecia o baile do Bola Preta! Os terroristas eram como artistas de televisão, dando autógrafos, cheios de macacas-de-auditório em volta. O Muhamad Atta, aquele chefe-suicida, estava deitado numa cama de ouro e rubis, com odaliscas do Catumbi rebolando a dança do ventre, ali, feito a Feiticeira... Tudo que eles jamais tiveram no deserto eles têm aqui em cima. "Pois, agora, rapaz, vou te dizer uma coisa 'social': os reis da Arábia Saudita, da Líbia, do Iêmen, todos adoram que o inimigo seja o americano, vivem felicíssimos nos seus palácios com cascatinhas artificiais e filhote de jacaré nadando dentro, enquanto os miseráveis batem cabeça para Alá e não percebem que são os otários de Maomé... Isso é que é o haxixe do povo! — Nelson, você ficou marxista aí no céu... — O Marx me chama de "reacionário", mas me ouve muito... Ele anda chateadíssimo com as bobagens que escrevem sobre ele, inclusive amigos da Academia... Eu disse para ele: "Olha, Marx, a burrice é uma força da natureza, feito o maremoto"... Ele vive repetindo isso, achou uma graça infinita... Bom sujeito, o Marx... — É... mas a História andou mil anos para trás... — Rapaz, nunca saímos da barbárie... pensa bem... tivemos duas guerras mundiais num século, sem contar Vietnã e coisa e tal... Se os alemães fizeram aquilo tudo, se os americanos derreteram 150 mil em 30 segundos em Hiroshima, imagine aqueles cretinos... Reparou que eles parecem um homem só ? Todos calmos, com a certeza da verdade lhes iluminando a fisionomia... A loucura é calma, o louco não tem dúvidas... Por isso, eles vão ganhar sempre... A razão é um luxo de franceses... — Mas e o futuro da humanidade... — O mundo nunca foi feliz... esse negócio de paz e felicidade global é invenção do comércio americano... O que houve agora é que os terroristas jogaram a gente de volta para dentro da tal "História". Além do mais, isso tinha de acontecer... Como o homem ia suportar aquela paz americana, com tudo arrumadinho como um supermercado... A loucura é a revolta do animal domesticado dentro de nós... Esse papo da Humanidade toda dando milho para os pombos na praça é lero-lero... Deus não quer isso. Vai olhar a Bíblia, o Torá; é tudo no "olho por olho"... Lembra a Inquisição? Deus é violento... (tô falando baixo que ele tá ali perto consolando o Hegel) . — Mas o ser humano... — Rapaz... a humanidade é uma ilusão. "Tudo que é real é irracional, tudo que é irracional é real." Se o mundo acabar, não se perde absolutamente nada... — E nós? — Agora sim, seremos o país do futuro. Graças a Deus, eles, os americanos, vão nos esquecer um pouco... Aí, a gente pode ir construindo a nossa grande Bahia intemporal, nosso Rio transcendental, nosso grande carnaval permanente. Finalmente, o subdesenvolvimento servirá para alguma coisa... — Deus te ouça, Nelson...

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Suzane, 19 anos, bela e rica, matou por amor

* Suzane Louise Richtfen (19 anos)e seu namorado, Daniel de Paula e Silva (21
anos) foram acusados de assassinar os pais dela em outubro de 2002. Segundo a jovem,
ela matou os pais por eles não aprovarem seu namoro.
CRIME HORRORIZOU todo mundo. Até os assassinos na cadeia chocaram.
Mesmo no mundo do crime há uma ética a preservar, mesmo o pior criminoso tem um
interdito moral. O crime de parricídio e matricídio premeditado durante o sono é mais que
um crime; é uma viagem ao desconhecido, é o desejo de atingir um recorde supremo. Não
há nada pior. Que delito Suzane e seus cúmplices poderiam considerar mais hediondo?
Suzane está no topo, nada há além dela. Ela nos aterroriza com sua crueldade. Os dois
monstros boçais ainda dá para entender: queriam grana, motocas e tatuagens, filhos dessa
geração de shoppings e violência.
Ela, não. Precisamos encontrar explicações para ela, senão ficamos
ameaçadíssimos. O crime sem motivo nos desorganiza. Se eIa, jovem, bela e rica, matou,
que será de nós ?
O crime sujo da favela apenas nos dá medo. O crime limpo e rico nos desampara,
nos dá vertigem. Suzane nos leva à beira da loucura, mas ela não é louca. Então, ela
matou por quê? — perguntamo-nos. Isso é que fascina e apavora no psicopata: ele toca
em nosso mistério. Vizinhos e amigos sempre dizem: "Eram doces, educados, tímidos..."
Até a hora em que metralham espectadores num cinema ou matam pai e mãe dormindo.
Por isso, os psiquiatras buscam "causas", como se a vida social fosse um contrato
de bom senso, como se fôssemos animais racionais e a loucura, um "desvio". É o
contrário: a sociedade é que é um desvio. Não adianta ter ódio de Suzane; não há punição
que apague o seu crime, não há como pagar sua dívida. O inferno cotidiano que ela terá
não apagará aquele momento, sempre além de qualquer entendimento.
Mas mesmo os psicopatas precisam de uma razão maior para justificar o crime.
"Matei por amor...", diz a menina de 19 anos, fina, linda, universitária. No entanto, esse
amor que a menina invoca é outro "amor". Ela e todos nós precisamos "justificar" esse
crime. Ou seja, deve haver um motivo para se matar a mãe. Ela também precisa de um
motivo, pois ela não sente culpa porque matou. Ela matou justamente para preencher um
grande vazio em seu mundo interno, matou para atravessar um deserto afetivo, matou
porque não sentia culpa, matou por vingança de não sentir culpa, matou até para tentar
sentir alguma culpa, sentir até algum... amor.
Por isso, sua declaração nos apavora: "Matei por amor! " Matou, sim, por amor,
para conseguir um pavoroso amor por que ela ansiava. Que estranho amor é esse ?
Eu acho que ela buscava o "amor" da hora. É o amor que nos grita de dentro do
comércio, de dentro do consumo, que nos chama de c dentro de um narcisismo impossível
de ser satisfeito, um amor que consome tudo, querendo uma felicidade absoluta, com a
abolição de todos os vínculos, todas as barreiras do "Édipo", todos os deveres sociais,
Suzane quis fazer um gesto imperdoável para sempre, absoluto, livre para sempre da
condição humana, quis o sangrento incesto invertido com os pais deitados na cama onde
Ia foi (talvez?) feita.
Esse crime seria uma espécie de conquista de Poder, sim, o poder de estar acima
dos sentimentos, da justiça, o poder de viver sem ;sociedade em volta, um poder maluco
que vemos anunciado nas entrelinhas das ideologias de hoje, nas gargalhadas sem
remorso nas revistas, na abolição descarada da compaixão, na promessa da satisfação
total, na fome de ter "tudo", O poder de liberdade crua que Suzane almejou me lembra o
poder que os Macbeth conquistariam, depois de "assassinarem o sono".
A frase da peça que mais me aterroriza é quando lady Macbeth, preparando-se para
o crime, grita a Deus ( ou ao demônio) : "Unsex me!" ( "Dessexualize-me !") Ou seja:
"Tire de mim a bondade feminina, transforme-me não num homem, mas tire o sexo de
mim, para que eu seja um ser livre da diferença, livre da condição humana dividida e me
transforme num ser monobloco, com um desejo só."
Como seria o amor de Daniel e Suzane, "Romeu e Julieta" ao contrário, se tudo
tivesse "dado certo"? Com os pais mortos, grana no bolso, garupa de motocicleta, os dois
teriam uma espécie de fusão, de orgasmo contínuo, acima da vida, acima do cotidiano,
pois ninguém mais poderia existir — só eles. i
A sociedade está tão narcisista, tão excludente de qualquer solidariedade, tão brutal
no seu desejo de satisfação, que contamina até os privilegiados. A pulsão de morte anda
solta. Vivemos atacados pela brutalidade do noticiário, pelos homens-bomba, pela
estupidez da cultura que gera batalhões de rapazes criminais, sem camisa, obcecados por
uma felicidade de consumo impossível. Não somente as balas nos atingem, mas também a
imensa boçalidade da cultura.
Suzane é psicopata, mas nossa sociedade também o é. Não há explicação para esse
crime. Não adianta procurar causas, traumas. Esse crime ficará sempre em aberto.
Misterioso, como nosso destino.

Resposta a uma moça 50 anos depois

OUTRO DIA, ESCREVENDO sobre meu passado, falei de uma menina da Urca
que, de longe, eu considerava minha namorada, Silvinha, moreninha de olhos verdes.
Dias depois, recebi um e-mail assim:
"Meu amigo Arnaldo,
Lisonjeada fiquei ao ler sua coluna de 29/06 pp. por me ver citada em suas
reminiscências. Hoje, com 46 anos de casada, com dois filhos e dois netos, entristece-me
pensar que a meninada atual não pode ter a infância livre e despreocupada que tivemos e,
portanto, não terá as lembranças das peripécias próprias de cada fase. Ah, bons tempos!
Agradecendo as citações, deixo aqui um saudoso abraço. Hoje, sou a 'grisalhinha' de
olhos verdes.
Silvinha!
Fiquei emocionado com o e-mail e agora respondo.
Querida Silvinha,
Hoje, mais de 50 anos depois, vou dizer o que sentia por você. Você foi o que eu
imaginava o que seria uma "namorada". Você despertou em mim um tremor novo, a
primeira emoção do que mais tarde vi que chamavam "amor". Em uma tarde cinzenta, em
frente ao portão de sua casa, eu senti uma alegria inesquecível como se tudo ali estivesse
no lugar perfeito: a brisa leve da tarde, a paz da rua, o silêncio sem pássaros, você
encostada no portão marrom do jardim. Não sei por que, senti uma felicidade
insuportável, como se ouvisse o calmo funcionamento no mundo. Percebi confusamente
que ali, no teu sorriso, ou olhos, ou boca, estava a explicação do sol filtrado em listras
entre as folhas da árvore e a perfeição do som agudo que tirei da folha de fícus enrolada
como uma flautinha vegetal, instrumento que hoje os garotos não conhecem mais.
Esse foi um momento que me ficou nos últimos 50 anos. Depois, uma brincadeira
também esquecida: "casamento japonês", onde se escolhia uma menina a quem se
perguntava: "Pêra, uva ou maçã"; você disse "uva" e eu beijei timidamente seu rosto,
sentindo-me, em seguida, voar por cima do seu jardim, vendo as casas da Urca lá
embaixo. E, assim, você ficou de namorada oficial de minha infância imaginária.
Não sei por que, Silvinha, sempre tive fascinação por meninas que me deixavam
arrebatado e com medo ao mesmo tempo, sempre e algum modo as meninas que me
atraíam me pareciam inatingíveis, etéreas, como se fossem destinadas a outros e não a
mim... essa impossibilidade aumentava meu fascínio de pierrô.
Aliás, devo confessar hoje, 50 anos depois, que você não foi a única.
Márcia corria de bicicleta pela pracinha e só tinha olhos para o Porcolino e olhava
com desdém sorridente para minha tentativa de alcançá-la na bicicleta, e eu via suas
pernas sob a saia que ventava e a bicicleta parecia deixar um rastro de cometa de Márcia;
também, mais tarde, ainda sem te esquecer, confesso que me apaixonei por Ciomara, que,
percebendo meu interesse tímido, aplicou-se em me espezinhar, tendo eu sofrido muito
vendo-a cantar provocativamente "Vivo esperando e procurando Cervantes no meu
jardim", uma versão da música "Four-leaf clover", um sucesso na época, que ela adaptou
para conquistar Cervantes, o belo half-back do time Arsenal. Ciomara me fez sofrer,
vendo-a de mãos dadas com ainda outro, para espicaçar também Cervantes, não eu,
debaixo dos flamboyants carregados de flores vermelhas.
Devo dizer também que fui crescendo e enlouqueci de um amor mais carnal por
uma moça mais velha, Isadora, de pernas lindas no maiô roxo Catalina, alva, de boca
rubra com muito batom. Daí para a frente, Silvinha, já adolescente, comecei minhas
incursões pelo mundo do pecado, sempre instruído por meu professor de sacanagens, o
saudoso pipoqueiro Bené, que você certamente conheceu, ele que me induzia às mais
pecaminosas ações solitárias, dando-me revistinhas de mulher nua, ainda ingênuas, como
Saúde e Nudismo, cheias de moças azuis, deitadas em praias remotas. Nessa época eu já
vivia em Copacabana, na casa de meu avô, onde eu tinha mais liberdade que sob as
ordens de mamãe. Lá no Posto Seis, no escuro dos cinemas, as primeiras namoradas se
retorciam e se recusavam ao assédio a seus desejados peitinhos, me deixando enroscado
em intrincados sutiãs cheios de presilhas e elásticos, que me impediam de chegar à
maciez dos seios ocultos, enquanto tiroteios rolavam na tela e eu me embaraçava nas
terríveis teias das alças, de onde saía desesperado com dores nos rins de tanto ardor
insatisfeito.
Depois, Silvinha, continuei minha trilha pelos caminhos que se abriam para os
jovens solitários daquela época: as casas de pecado do Catete, os famosos rendez-vous, o
que me fez dividir as mulheres em "santas" e "prostitutas", ficando as santas como você
em minha memória e as outras sendo fonte de erros e sofrimentos. Todas, então, santas e
bruxas, eram intangíveis, todas impossíveis. Veja como se formavam os jovens nos anos
50 para o amor.
Não conversamos nunca, Silvinha, você nem soube que era minha namorada
secreta, e vivemos esse meio século em mundos diversos. Você deve ter sido feliz, com
filhos e netos, seguindo a trilha natural que saía do seu jardim, enquanto eu tive um
caminho mais torto, sempre meio fora das coisas que eu via acontecer.
Tenho inveja das estradas largas e sadias e talvez eu tivesse sido mais feliz, se
tivesse feito a Escola Naval como meu pai queria, e hoje fosse um orgulhoso almirante
comandando cruzadores pelos mares do meu Brasil.
Mas não posso me queixar de nada, casei várias vezes, tive duas filhas e um filho
maravilhosos, chorei muitas vezes de dor-de-corno e de desentendimento, mas não posso
me queixar, pois, além do que vivi, vejo hoje que as memórias são tão sólidas quanto as
realidades, que muitas vezes se esvaem mais rápido que aquelas. Você ficou como uma
primeira sensação do que chamam "amor". E como diz o poeta: "...as coisas findas, muito
mais que lindas, essas ficarão..."
Beijo tardio,
do Jabor.

O chato é antes de tudo um forte

ESTÁ TUDO TÃO chato no Brasil, que vou escrever sobre os chatos. Você é
chato? Nunca saberá. O chato não se sabe como tal, ou melhor, sabe sim, mas sempre tem
a esperança de sair da categoria e ser aceito como não-chato. Por isso, chateia todo
mundo. O chato é, antes de tudo, um carente. Ele vive do sangue dos outros, do ar dos
outros, o chato precisa de você para viver. Sozinho, o chato não existe. Existem vários
tipos de chatos. O mais famoso é o chato de galochas, que eu pesquisei e descobri que a
origem do termo fala do cara que sai de casa com chuva torrencial, põe as galochas e vai a
tua casa para te chatear. Há chatos masoquistas e sádicos. O primeiro é aquele que gosta
de chatear para ser maltratado: "Porra, não enche, cara!” Adora ouvir esta frase, para
remoer um rancor delicioso que valoriza sua solidão: "Não me entendem, logo sou
especial!" O chato sádico, não. Ele quer ver teu desespero e escolhe os piores momentos
para te azucrinar: "Poxa...sua mãe morreu ontem, mas ouve meu problema com minha
mulher..."
Eu não vou fazer aqui um tratado geral dos chatos, como já fez o Guilherme
Figueiredo, aliás um livro chato. Como lutar contra eles! Por exemplo, o Tom Jobim, uma
das maiores vítimas de chatos, ensinou-me um truque: "Use óculos escuros. O chato fica
desorientado quando não vê teus olhos. O chato adora ver o próprio rosto refletido em
teus olhos desesperados. Com você de óculos escuros, ele desiste e vai embora." O chato
gosta de ver teu sofrimento, por isso não adiantam as respostas malcriadas, resmungos.
Ele gruda mais. Nem adianta fingir simpatia, na esperança de que ele parta. Não há
solução. Se bem que a reza ajuda. O chato está falando e você ali lembrando a "Ave-
Maria". Te acalma como um mantra e Deus pode vir em tua ajuda.
Outra técnica que funciona muito é chatear o chato. Seja o chato do chato. Ele
pergunta: "Por que você não volta a fazer cinema? " E você retruca: "Que você está
achando do PMDB?" Faça-o falar, como o Freud agia com as histéricas. O chato falador é
mais suportável do que o chato perguntador. Depois que eu comecei a falar na TV, virei
um papel apanha-moscas para chatos. Não quero bancar o famosinho mas, veja bem
( como dizem os chatos) , o sujeito te vê na TV, no quarto onde ele está transando com a
mulher e você na tela, falando sobre o Chavez... O cara fica íntimo teu e te agarra na rua,
no shopping e gruda, como um colega conjugal. Uma vez, tinha um chato no celular
(grande tipo novo, o chato do celular) e eu tomando um cafezinho no aeroporto, oito da
manhã, indo para Porto Velho, com conexões. "Ihh... meu amor... sabe quem está aqui ao
meu lado? ... O Jabor... é e... quer ver?" Se vira para mim e: "Fala aqui com minha
namorada... o nome dela é Eliette." Esse é primo do chato-corno: "Minha mulher te ama;
dá um autógrafo pra ela... Escreve: Te amo, Marilu..." (O chato-mala nunca tem caneta ou
papel): "Escreve aqui mesmo neste guardanapo molhado..."
Temos também o chato do elevador. Estou num elevador vazio, indo para o 20Q.
Entra um cara e me olha. Eu, precavido, já estou de cabeça baixa. Há uns momentos
tensos de dúvida: "Ele ousará falar? ", eu penso. "Falo com ele ? ", ele pensa. Passam uns
andares. "Ele não vai agüentar", eu penso. Não dá outra. "Você não é aquele cara da TV?
" "Sou... ha ha...", digo, pálido, fingindo-me deliciado. "Só que eu esqueci teu nome...
Como é teu nome mesmo?" "É Arnaldo", digo eu, querendo enforcá-Io na gravata de
bolinhas. "Não... é outro nome... ah... é... Jabor... isso... porra, claro... E é você mesmo
que escreve aquelas coisas... ? " E eu penso, sorrindo simpático: "Não; é a tua mãe que
me manda lá da zona."
Tem o chato-mala, sempre no ataque. Outro dia, também no aeroporto, eu subindo
uma escada, com duas malas e o cara berrou: "Eiii, me dá um autógrafo! " Todo mundo
olhando e eu com duas malas. "Não me leve a mal, mas estou pegando o avião..." E ele:
"Poxa... tu tá ficando é muito mascarado, cara! "
Um dia, houve o clímax, a apoteose do chato do autógrafo. Fazia eu um modesto
xixi num banheiro de cinema, aquele xixi triste e pensativo, quando o cara chegou: "Me
dá um autógrafo?" Fiquei uma arara: "Estou fazendo xixi... tu quer o quê?" E ele: "Qual é
a tua? Tá pensando que eu sou viado? Enfia esse autógrafo..."
Tem muitos tipos. Tem o chato crítico. Ele te agarra na rua e começa com elogios
rasgados: "Você é o máximo; aquele teu artigo foi demais, mas... (trata-se do chato do
'mas'...) mas, você disse uma besteira horrível — o PIB da China não é aquele que você
falou..."
Um chato muito encontradiço é o chato da Ponte Aérea... Ele fica à espreita na
sala, atrás de uma coluna. Você entra... ele te vê de longe... Você pensa: "Será que ele me
viu?" Você finca os olhos no jornal, trêmulo de medo e esperança. Dali a pouco, passos a
teu lado, uma maleta pousando no chão e ele gruda: "Posso lhe dizer uma coisa...?" E pela
lei de Murphy, em geral ele estará na poltrona ao lado no avião.
Tem o chato da foto: "Posso tirar uma foto com você ? " Pronto. Lá estou eu na
rua, abraçado a um idiota de bigode, com todo mundo olhando. Flash! E o cara some num
segundo, com um rápido "obrigado". Esses só querem nos roubar a imagem... O chato da
foto sempre me deixa carente...
Há muitos tipos. O chato-altissonante, por exemplo. Grita no bar, de longe: "Ei,
labor, que que tu tá achando da guerra Israel-Árabe?" Um altissonante uma vez me berrou
na saída de um teatro: "Adoro você... ( eu sorrio, rubro de modéstia) mas tu precisa parar
falar besteira sobre o Lula, hein... ! Olha, por isso o Ferreirinha aqui te odeia! " (Ao lado
dele, está o "ajudante de chato", rindo com deboche. )
Tem todo tipo. E agora tem os "e-chatos" na internet que, aliás, botaram na rede
artigos boçais e maniqueístas, que eu nunca escrevi, assinados com meu nome. Já
puseram um em que "eu" esculhambava a Adriane Galisteu. E agora tem outro rolando,
chamado "Faz parte", onde o falso "eu" humilha aquele rapaz que ganhou o Big Brother.
Além de e-chatos, esses são canalhas e burros.

Meditações diante do bumbum de Juliana

ULTIMAMENTE SÓ HOUVE um assunto nesse bendito país: o bumbum de
Juliana Paes na Playboy .O bumbum era esperado como um messias redentor, aguardado
como a salvação do Brasil neste momento sem graça.
Políticos, bancários, eu, todos ansiávamos por esse bumbum como por um Maomé,
um profeta. O que poderia nos revelar esse bumbum ?
Corri para as bancas e comprei a Playboy sob o olhar debochado do jornaleiro que
me reconheceu e perguntou se eu não ia levar o The Economist também. "Claro, claro...",
respondi, vermelho. Chego em casa, rasgo a capa de plástico com as mãos trêmulas, abro
com uma sensação de pecado e esperança, e vejo Juliana Paes em seu esplendor. Folheio
a revista e caio numa perplexidade muda.
Antes de continuar, devo dizer que já escrevi sobre o bumbum da Feiticeira, o
bumbum da Tiazinha e continuo sem uma palavra apropriada. Não há na língua
portuguesa um termo corrente para essa parte do corpo. A palavra "bunda" tem uma
conotação pejorativa, um substantivo já adjetivado de saída. Há eufemismos como
"traseiro" ou metonímias como "nádegas", "glúteos" etc... Portanto, "bunda" é a palavra
certa...
Muito bem; com todo o respeito, a bunda de Juliana me deixou aparvalhado. Não
sei se esperava muito; só sei que fui tomado por uma funda decepção. Não sobre a beleza
da bunda, pois é muito bonita, sim, mas pelo choque de realidade que me trouxe. Afinal,
verificamos que era apenas uma bunda e não um enviado de Deus, era apenas uma moça
que nos parece gentil, romântica, bondosa como uma babá, mostrando o bumbum como
um bebê recém-nascido.
Ela sorri, parecendo dizer: "É só isso o que vocês queriam? Ora... pois aqui está
minha bundinha..." Olhei o bumbum de Juliana por todos os ângulos, e nada aconteceu,
sexual e filosoficamente. Confesso, Juliana, com todo o respeito, que imaginei cenas
eróticas comigo mesmo, com outros e nada senti... Pensei: "Estou decadente, ou as uvas
estão verdes..." Mas, não, não era isso. Bateu-me mesmo uma certa tristeza, de ver aquela
moça ali, satisfazendo nosso desejo bruto e invasivo, esse povo de onanistas e sodomitas
sempre desejando a mulher por trás. Senti um vazio ao ver um segredo revelado,
estragando com sua nudez meridiana a glória da moça da novela. Algo como água fria
num sucesso, algo como a traição contra Zeca Pagodinho, no auge de sua ascensão. O
mercado estraga o prazer, programando-o. Toda a beleza do mito é justamente seu
mistério inacessível, seu enigma não decifrado. Juliana da novela não é só sua bunda.
Ela é a doce ingênua do subúrbio, a moça generosa, dadeira, mas honesta, com seu
rosto redondo de brasileira, com largos quadris de boa mãe leiteira.
Sua nudez não tem a norma perversa das playmates típicas. Falta-lhe a crua
perversão das outras, gatas ferozes prometendo sexo selvagem. Não. Juliana tenta rostos
sacanas, mas só passa uma doçura incontrolável, faltando-lhe a catadura zangada das
punks ou sadomasoquistas.
Daí, me bateu a verdade inapelável e cruel: a bunda não existe. Só existe a "idéia"
de bunda, o conceito platônico de bunda. Isso. No caso de Juliana, o bumbum real destrói
o bumbum imaginário. Sempre sonhamos com aquele bumbum adivinhado sob os
vestidos na novela e ele tinha a multi-dimensão rica de uma metáfora. Ele era todos os
bumbuns, ele era uma promessa de vida em nossos corações. Mas, diante do bumbum
real, a vida perdeu o mistério, tudo se aquietou na paz da anatomia óbvia. Vemos, com
clareza e realismo, que é apenas um bom bumbum brasileiro, que um dia cairá, como o
PT.
Por isso, me pergunto por que a bunda é nosso símbolo? Para os anglo-saxões são
os seios, leiteiros, alimentícios. O bumbum para nós, ibéricos, é menos inquietante que a
vagina; essa nos lembra fecundidade, essa nos coloca diante da responsabilidade da
criação da vida, e até dos perigos da devo ração pela fêmea dentada e potente. A vagina é
um pênis embutido; a vagina é o "ouro" e merece respeito. Já o bumbum, por infecundo, a
reboque do corpo, tem uma imagem mais propícia para sacanagens sem perigo, além de
ser uma herança do homossexualismo deslocado dos senhores portugueses diante da
negras zulus nas senzalas.
Por isso, afirmo que o bumbum de Juliana é uma bunda romântica, familiar. No
caso de Tiazinha ou da Feiticeira, a bunda tinha vida própria. Era mais importante que as
donas.
Muitas mulheres de bonitas bundas chegam a ter ciúmes de si mesmas e têm uma
atitude envergonhada de suas formas calipígias. A mulher de bunda bonita caminha como
se fossem duas: ela e sua bunda. Uma fala e ninguém ouve; a outra cala e todos olham. A
mulher de bunda bonita não tem sossego; está sempre auto-consciente do tesouro que
reboca. A mulher de bunda bonita mesmo de frente está sempre de costas. A mulher de
bunda bonita vive angustiada: quem é amada ? Ela ou sua bunda ? Algumas bundas até
parecem ter pena de suas donas e quase dizem: "Olhem para ela também, ouçam suas
opiniões, sentimentos... Ela também é legal...”.
A bunda hoje no Brasil é um ativo. Centenas, milhares de moças bonitas usam-na
como um emprego informal, um instrumento de ascensão social. A globalização da
economia está nos deixando sem calças. Sobrou-nos a bunda... nosso único capital.

Meu avô foi um belo retrato do malandro carioca

ESTE TEXTO É sobre ninguém. Meu avô não foi ninguém. No entanto, que
grande homem ele foi para mim. Meu pai era severo e triste, mal o via, chegava de aviões
de guerra e nem me olhava. Meu avô, não. Me pegava pela mão e me levava para o
Jockey, para ver os cavalinhos. Foi uma figura masculina carinhosa em minha vida. Se
não fosse ele, talvez eu estivesse hoje cantando boleros no Crazy Love, com o codinome
Neide Suely.
Meu avô, Arnaldo Hess, foi um belo retrato do Brasil dos anos 40/50. Era um
malandro carioca — em volta dele, gravitavam o botequim, a gravata com alfinete de
pérola, o sapato bicolor, o cabelo com Gumex, o chapéu-palheta, o relógio de corrente,
seu Patek Phillipe tão invejado, em volta dele ressoava a língua carioca mais pura e linda,
com velhas gírias [Essa matula do Flamengo é turuna (forte)..] Meu avô era orgulhoso de
viver nesta cidade baldia e amada, o Rio que soava nos discos de 78 rpm, nas ondas do
rádio, o Rio precário e poético, dos esfomeados malandros da Lapa, das mulheres sem
malho e de seus sofrimentos românticos, entre varizes e celulite. Antes de morrer, ele me
olhou, já meio lelé, e disse a frase mais linda: "É chato morrer, seu Arnaldinho, porque eu
nunca mais vou à avenida Rio Branco" . Ali, onde ele me levava para tomar refresco na
Casa Simpatia, era o centro de seu mundo. Os políticos canalhas populistas que estão hoje
aí querem a volta do passado apenas pelo lado "sujo" do atraso. Mas havia também uma
poética do atraso — na Lapa, no Mangue, havia um Rio que, com poucas migalhas,
fabricava uma urbanidade pobre, bela e democrática.
Ele também me dava aulas de sexo. Contou-me uma vez que a melhor mulher que
ele teve na vida tinha sido uma "João". Que era "João"? Esse termo, ainda escravista,
designava as pretinhas tão pretinhas que tinham o pixaim da cabeça ralo, quase carecas.
Eram as "João". Pois ele me disse: "Foi no terreno baldio, ali na General Belfort... foi o
melhor nick fostene que eu tive..." (Inventara esse nome de falso inglês de cinema
americano para designar a cópula, sendo a palavra acompanhada pelo gesto vaivém de
bomba de "Flit": Nick Fostene...) Contava isso a um menino de dez anos, a quem ele dava
cigarros e ensinava ( a mim e ao Cláudio Acylino, meu primo) apegar bonde no estribo,
andando. Me apresentou sua amante, uma mulher ruiva chamada Celeste, que me beijava
trêmula e carente como uma avó postiça e que, sendo de "boa família" ( ele me falava
disso com uma ponta de orgulho), "nunca se metera em sua vida familiar oficial". Isso ele
dizia com os olhos machistas molhados de gratidão. Ou seja, ele me ensinava tudo errado
e com isso me salvou.
Quase analfabeto, vivera grudado com a turma dos intelectuais da Colombo,
babando com os trocadilhos de Emilio de Menezes, Olavo Bilac, Agripino Grieco nos
anos 20, o que lhe deu um fascinado amor às letras que não lia, mas que o fez trazer-me
sempre um livro novo, da Rio Branco, junto com a goiabada cascão e o catupiry.
Uma vez, já mais tarde, eu namorava uma moça lindíssima e virgem (claro) mas
burrinha. Reclamei com ele. Resposta: "Ah, é burrinha ? Você quer inteligência ? Então
vai namorar o Santiago Dantas! " Quando fomos aos sinistros rendez-vous, de onde nos
floresceram as primeiras gonorréias, nossos pais severos bronquearam: "Vocês são uns
porcos! " Já nosso vovô riu, sacaneando: "Poxa... boas mulheres, hein... ? "
Vovô nos ensinava a conversar com as pessoas, olho no olho. Na minha família de
classe média, celebravam-se as meias-palavras, o fingimento de uma elegância falsa, de
uma finesse irreal. Só meu avô falava com os vagabundos da rua, com os botequineiros,
com os mata-mosquitos. Enquanto minha família toda votava histericamente na UDN, em
pleno delírio golpista, meu avô pegou o chapéu, e foi votar. Eu fui atrás dele... "Votar em
quem?" "No Getúlio, seu Arnaldinho... ele gosta do povo e eu sou povo." "E eu sou 'povo'
também, vovô?", perguntei. Ele riu: "Você não; você tem velocípede..."
Ele me levava ao Maracanã, ele me levava em seu ombro para ver a estrela de
néon da cervejaria Black Princess ( até hoje me brilha esta supernova na alma), ele, uma
vez, deixou-me ver um morto na calçada, navalhado no peito ( "Parecia a fita do Vasco da
Gama", ele disse) — não me escondeu a tragédia. Me ensinou tudo errado e me salvou...
Meu avô adorava a vida e usava sempre: o adjetivo "esplêndido", tão lindo e
estrelado. A laranja chupada na feira estava "esplêndida", a jabuticaba, a mangacarlotinha,
tudo era "esplêndido" para ele, pobrezinho, que nunca viu nada; sua única
viagem foi de trem a Curitiba, de onde trouxe mudas de pinheiros. "Esplêndidas..."
No fim da vida, já gagá, eu o levava ao Jockey para ele conversar com o Ernani de
Freitas, o amigo tratador de cavalos, que lhe dava um carinho condescendente com sua
gagazice, falando de cavalos que já haviam morrido. "Hoje corre a Tirolesa ou a
Garbosa ? ", perguntava. "A Tiroleza está machucada, Arnaldo..."
Velho gagá, deu para dizer coisas profundíssimas. Uma vez, já nos anos 70,
celebrei para ele as maravilhas lisérgicas do LSD que eu tomara. Ele me ouviu falar em
"delírio de cores", "lucy in the skies" e comentou: "Cuidado, Arnaldinho, pois nada é só
bom..." Outra vez, vendo passar um super-ripongão sujo, "bicho-grilo brabo", comentou:
"Olha lá. Um sujeito fingindo de mendigo para esconder que realmente é... !
Há dois anos, na exumação de um parente, o coveiro colocou várias caixas de
ossos em cima do túmulo. Numa delas, estava escrito a giz: "Arnaldo Hess". Não resisti e
levantei de leve a tampa de zinco. Estavam lá os ossos de vovô. Vi um fêmur, tíbias, que
eu toquei com a mão. Vocês não imaginam a infinita alegria de, por segundos, encostar
em meu avô querido. Eu estava com ele de novo em 1952, sob o céu azul do Rio.
Meu avô não era ninguém. Mas nunca houve ninguém como ele.